Ler a céu aberto, projetar a luta.
A tarefa de partir do potencial literário, muitas vezes enclausurado em análises individuais e bibliotecas octogenárias, para a construção de uma resistência coletiva não é simples. Porém, a parceria entre a n-1 edições com o MSTC (Movimento Sem Teto do Centro) revindica o encontro de leituras e afetos múltiplos como o início deste complexo processo. Ao ler em voz alta, conspirações são tramadas, coalizões são formadas e posições são marcadas. Leitores em potencial sentam ao lado dos escritores e editores, produzindo um debate público, horizontal e amplo. Assim, o conteúdo das publicações toma a forma de uma experiência política. 
Neste sentido, repetindo suas “Leituras A Céu Aberto”, que em sua última edição recebeu o escritor Marcelino Freire, a Ocupação Nove de Julho (Rua Álvaro de Carvalho, 427) terá a presença da contista Elisa Band em seu mensal almoço dominical, no dia 24/03. A autora de “Perecíveis” lançará o conto “12 milímetros”, a ser vendido a dois reais. Parte da renda obtida com as vendas será revertida para a biblioteca da Ocupação.

Colaborou Rodrigo Falcão



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Céu Aberto 1 – Ocupação 9 de Julho (MSTC)
Ao contrário de uma uniformidade social no espaço, o centro da cidade de São Paulo apresenta uma multiplicidade significativa. Basta ver de perto. Sem este cuidado, um certo prédio na rua Álvaro de Carvalho seria apenas mais um. Mas, a potência de vida que saía dos olhos de seus moradores produzia um espaço muito maior que uma mera torre de concreto. Ocupação.
Esta comuna central foge do isolamento. Em um almoço dominical, abrem-se as portas. As mais diversas fronteiras são ultrapassadas pelos outros dos outros. E, ao comer um baião de dois, adquirir um livro, tomar uma cerveja ou dançar, os corpos ocupantes, dos moradores ou não, atualizam a noção de lutar coletivamente. Neste encontro inesperado de afetos, alianças são firmadas.
A partir do pacto entre o MSTC e a n-1 edições, o escritor Marcelino Freire, através de sua fala verborrágica, dramatizou a vida dos trabalhadores brasileiros e a visão da paz para quem vive a guerra. O conto “Quentinha”, lançado no local e vendido a dois reais, também fora lido, suscitando diversas falas dos presentes. Entre o peso das falas e o prazer de estar naquele local, dona Carmen pediu a nós: “Deixa essa entidade baixar, se manifestar em vocês. Se joga!”. A potência sonora das falas e as potencialidades destas palavras valem muito mais do que apenas livros nas estantes de uma biblioteca.

21.02.2019
Colaborou Rodrigo Falcão



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Texto integral da entrevista dada pela n-1 edições
a Nelson de Sá, da Folha de São Paulo

1. O que levou à fundação da n-1 edições? Vcs perceberam um vazio, na produção editorial brasileira, em relação aos temas que ela prioriza? Aliás, como vc descreveria a trajetória da editoria e seus temas?
PPP- Há no Brasil excelentes editoras, e várias delas cumpriram seu papel histórico com coragem e dignidade. E sem dúvida, parte de nossa formação devemos a elas. Mas sentíamos falta, sim, e isto há já alguns anos, de textos que tocassem no nervo da contemporaneidade, que ousassem uma teorização heterodoxa, que deslocassem o eixo de nosso pensamento, reativando a afetividade que lhe pertence. Daí a nossa aposta em autores desconhecidos ou inéditos entre nós (Mbembe, Preciado, Deligny, Uno, Lapoujade, Lazzarato, Massumi). Não se tratava, obviamente, de inventar novas celebridades nem trocar de mestres. Mas através da inversão de perspectiva, conectar-se com linhas de força presentes entre nós, e que pediam passagem. Cada um desses autores, quando publicado em português, conjugou-se a movimentos já muito presentes aqui: Crítica da razão negra, de Mbembe, rapidamente esgotado, interessou os movimentos negros e pesquisas relativas à história da escravidão e do racismo. Paul B. Preciado teve uma recepção entusiasta por parte da comunidade LGBTQ, bem como de uma geração que vive no próprio corpo um deslocamento evidente em suas práticas sexuais – o mesmo ocorreu com Teoria King Kong, de Virginie Despentes. Um livro importa pelos encontros que ele suscita, pelos acontecimentos que provoca, pela rede na qual ele se insere, que ele nutre e pela qual é nutrido para multiplicar-se e produzir novas percepções, novos afetos, novos movimentos. Não significa que nos dedicamos às ditas minorias, apenas, mas sim que nossos livros dizem respeito a deslocamentos tectônicos que ocorrem em nossa atualidade e em nosso país, que mexem com o estatuto dos pobres, das mulheres (e, logo, dos homens), LGBTQ, negros (e, logo, dos brancos), indígenas, doidos, autistas, artistas, historiadores, pensadores. Aliás, é contra todas essas “minorias” perseguidas há tempos ou vetores diabolizados que o fascismo atual se volta ainda mais furiosamente. O que comprova retroativamente o acerto dessas escolhas.

2. O que integra a escolha de livros políticos como os três do Comitê ou o não-manifesto de Negri e Hardt com as obras de Deleuze, Guattari e Foucault e o teatro Heiner Müller?
Não cabe a uma editora ser veículo de um partido político, muito menos porta-voz de qualquer doutrina. Sua existência, no entanto, pode significar uma intervenção no campo das ideias e das práticas. Assim, uma entrevista com Foucault sobre a revolução iraniana (O enigma da revolta), um manifesto do Comitê Invisível, um anti-manifesto de Negri, um estudo de Deleuze sobre Nietzsche, ou Viveiros de Castro (Metafísicas Canibais), ou de Laymert Garcia dos Santos sobre a Ópera Amazonia, ou de Suely Rolnik (Esferas da insurreição), ou de Brian Massumi (O que os animais podem nos ensinar sobre política) não dizem a mesma coisa, não tratam do mesmo tema, não têm a mesma perspectiva. Mas cada um deles, e tantos outros não mencionados aqui, com seu estilo, perspectiva, tema, possui uma dimensão política necessariamente, já que implica num deslocamento no campo dos saberes, poderes, práticas, subjetividade. É possível pensar diferentemente, perguntava Foucault? A sexualidade, a negritude, a loucura, o autismo, os indígenas, os animais, a terra, a floresta, podem ser problematizados conforme as reviravoltas a que assistimos hoje, aqui, agora, entre nós? Não de novo “falar sobre” estas, mas deixar-se infletir por elas... Eis questões que reverberam entre si, que fazem rede, e que podem reativar uma sensibilidade política e uma radicalidade do pensamento que pareciam perdidas. Nada disso precisa ser bombástico – acreditamos na sobriedade também (Walter Benjamin, os cacos da história, de Jeanne Marie Gagnebin), no tom menor, na sutileza (As existências mínimas, de Lapoujade), no passo de pomba, até no devir-imperceptível. Ler ainda pode ser um ato de solidão, de perplexidade, mas também de irreverência, de ruptura, de contágio multitudinário. O silêncio da leitura pode abrir-nos para mundos desconhecidos, e fornecer assim instrumentos, inspiração, imaginação para outras linhas de vida. Mas também as leituras coletivas, os grupos de estudo, as leituras a céu aberto (nossa coleção A céu aberto, para contos a serem lidos em ocupações, periferias, cracolândia, etc) têm sua função. Portanto, nosso catálogo não é uma lista de livros políticos, mas de pensamentos que, direta ou indiretamente, lidam com o que poderíamos chamar políticas da vida. Agamben disse com muita propriedade: os editores deveriam deixar de investir na lista infame dos mais vendidos, e sustentar um catálogo mental dos livros realmente necessários.

1. Vc pode resumir o que levou ao surgimento do Comitê? E como ele ajuda a compreender grandes manifestações e revoltas neste século, como aquelas de 2005, nos subúrbios de Paris, e agora o movimento dos coletes amarelos?
2. Contribuições para uma Guerra em Curso, que está saindo pela editora no Brasil, já foi publicado na França? A obra tem alguma relação com o artigo de mesmo nome (ou quase) que saiu na Lundimatin no início de dezembro, no início dos novos protestos?
3. O que vc pode comentar, em off se preferir, sobre a relação do Comitê Invisível com Julien Coupat, que chegou a ser detido também no início das manifestações, em dezembro?
4. Os livros (e outras publicações consideradas próximas do Comitê) relacionam os movimentos na França com aqueles de outros lugares do mundo, como a Primavera Árabe. O que os liga? Quais são as características que os aproximam?
5. Isso vale tbém para o Brasil, para os movimentos de 2013, a ascensão da extrema direita e as eventuais alternativas de protesto e oposição no futuro?



O Comitê Invisível
Eis um “nome” que reafirma a força política do anonimato. Se a autoria em nossos dias é um trampolim para a celebridade, um veículo para o narcisismo ou a picareta para o alpinismo cultural, é preciso lembrar que ela surgiu no passado também como um dispositivo de responsabilização penal: quem escreveu essa blasfêmia, quem pregou a derrubada do Príncipe, quem deve ser incriminado? Por conseguinte, tal como as máscaras nas manifestações de hoje, o anonimato é uma estratégia de despiste frente aos instrumentos repressivos do Estado. Não à toa os “mascarados” foram proibidos nos atos públicos ultimamente. É preciso mostrar o rosto, poder ser identificado e virar alvo de processo criminal. Até mesmo um jornal como a Folha de São Paulo recusa publicar um texto anônimo – falo por experiência pessoal. [Por ocasião da recusa da Cátedra Foucault na PUC-SP tentei publicar uma entrevista fictícia com um Foucault depois da morte, e por razões óbvias não queria ser identificado - o texto só saiu porque levou a assinatura de uma colaboradora].
Para além desse embate policialesco, certa tradição que começa em Nietzsche e atravessa o século XX até Blanchot e Foucault tratou de destituir o eu (o sujeito, o autor) como fonte ou centro da obra. É o fim da propriedade privada no plano do pensamento, e a percepção de que a linguagem, assim como a terra ou a água, são da ordem do comum, na contramão de uma privatização crescente de tudo.
Pode-se objetar que o anonimato hoje é praticamente impossível. Os dispositivos digitais são capazes de rastrear tudo. De fato, qualquer um pode consultar o Google ou a Wikipedia e imediatamente encontrará o nome dos supostos participantes do Comitê Invisível, um resumo de sua trajetória, ou a súmula caricata das ideias em jogo. Isto não retira em nada a força cortante de seus textos. O estilo cáustico e demolidor, a radicalidade política, existencial, vital, impacta o leitor já nas primeiras frases. Por exemplo: “Todas as razões para fazer uma revolução estão aí. Não falta nenhuma. O naufrágio da política, a arrogância dos poderosos, o reino do falso, a vulgaridade das riquezas, os cataclismos da indústria, a miséria galopante, a exploração nua, o apocalipse ecológico – de nada somos poupados [...] Todas as razões estão reunidas, mas não são as razões que fazem as revoluções, são os corpos. E os corpos estão diante das telas.” (Agora: Motim e destituição) Ou então, na esteira das revoltas que espocaram desde a primavera árabe até as jornadas de junho de 2013 no Brasil: “As insurreições chegaram. Mas não a revolução. Raramente veremos, como nestes últimos anos, num lapso de tempo tão condensado, tantas sedes de poder oficial tomadas de assalto, desde a Grécia até à Islândia. Ocupar praças bem no centro das cidades e aí montar barracas, e aí erguer barricadas, refeitórios ou tendas, e aí reunir assembleias, tudo isso em breve se tornará um reflexo político básico, como ontem foi a greve. [...] Mas por maior que seja a desordem sob os céus, a revolução parece sempre se asfixiar na fase de motim. [...] Nesse ponto, é preciso admitir, nós, os revolucionários, fomos derrotados.” (Aos nossos amigos – Crise e insurreição). Todo o esforço desses textos está em diagnosticar onde e como a esquerda mesma enterrou a revolução enquanto processo, desejo, irreverência, criação de mundo.
Claro, não faltam nestes livros libertários referências históricas, desde a Comuna de Paris até Maio de 68. Quanto aos autores invocados, mesmo quando não são mencionados (não há notas de rodapé!), compõem uma nebulosa contestatária que inclui Debord, Agamben, Foucault, Deleuze-Guattari, Viveiros de Castro, mas também Marx, Benjamin, Espinosa... Ou ainda Walser, Musil, Blanchot. A erudição em momento algum se traduz em academicismo estéril. A análise corrosiva funciona como uma metralhadora giratória, sem concessões humanistas ou piedosas, sem ortodoxias doutrinárias ou partidárias, sem tolerância para com o assembleísmo ou a Realpolitik, donde os coices, por vezes raivosos e até injustos, a “vizinhos” como Negri, operaístas ou teóricos do cognitariado, ortodoxias marxistas, ou até mesmo a movimentos que “negociam” com a polícia o trajeto e o horário de suas manifestações.
O livro que publicamos agora, Contribuição para a guerra em curso, apareceu originalmente no primeiro número da revista Tiqqun. Vem de Tiqqun Olam, conceito da tradição judaica que significa reparação, restituição, redenção do mundo. Quem eram seus autores? Ninguém assinava os textos, não havia menção a um comitê de redação. Invocavam um tal de “Partido Imaginário”. O segundo número levava o subtítulo de Zona de Opacidade Ofensiva. E o principal: tratava-se de ler o contexto contemporâneo como uma guerra civil entre formas-de-vida. Ora, como não perceber a atualidade dessas ideias e análises no Brasil de hoje? Não vivemos nós uma guerra civil, com a militarização declarada do enfrentamento político, onde o fascismo ascendente pretende suprimir as formas-de-vida que não obedeçam a seu padrão branco-macho-conservador-evangélico-heteronormativo-patriota-neoliberal-humano-demasiadamente-humano? Há exemplo mais gritante do que o nosso de uma guerra civil declarada e tamponada a um só tempo, do uso ilimitado da violência institucional ou jurídica sob o manto risível da democracia?
Tiqqun durou dois números e sumiu. Entrementes, vários livros sob essa “autoria” anônima vieram a lume. Teoria do Bloom descrevia a metafísica do homem comum contemporâneo e planetário, na sua vacuidade, no seu analfabetismo afetivo, no turismo existencial em que se agarrava. Teoria da moça punha em xeque a mulher-objeto. E o livro que publicaremos ainda este ano leva o título saboroso: Tudo deu errado, viva o comunismo!
Extinta a revista, alguns de seus membros (anônimos) fundaram uma comunidade singular em Tarnac, em ruptura com a forma-de-vida predominante. Atribuiu-se a eles a sabotagem contra um trem de alta velocidade (TGV), através de um gancho de ferro pendurado na linha elétrica, interrompendo por horas o tráfico ferroviário da região. Duas pessoas foram presas, sob pretexto de terrorismo, também acusadas de terem participado de uma explosão nos Estados Unidos, em 2008. A acusação referia-se à criação de uma “célula invisível”, em meio a um grupo “anarcoautonomista” (!), no mais puro estilo dostoyevskiano de Os demônios. Demorou anos para que a acusação fosse arquivada e a unidade antiterrorista afastada do caso, uma vez comprovada a “montagem” policial (e o atentado ao trem acabou sendo reivindicado por um grupo alemão). Por anos a comunidade de Tarnac permaneceu sob vigilância estrita, escuta telefônica, rastreamento digital, suspeita de terrorismo.
Nos últimos anos, já sob o novo nome de Comitê Invisível (não haveria aqui uma reversão no sentido da acusação policial, a da formação de uma “célula invisível”?), foram publicados três livros: A insurreição que vem, com grande impacto, Agora: Motim e destituição e Aos nossos amigos: Crise e insurreição, estes últimos publicados pela n-1 edições.
Ainda uma palavrinha sobre o caráter anônimo dessa sequência editorial. Vira e mexe sou perguntado se faço parte do Comitê Invisível. Na verdade, a exemplo da Comunidade Inconfessável de Blanchot, que não era composta por nomes reais, mas perfazia uma constelação de pensamento e de escrita, a meu ver trata-se aqui de algo parecido: dar voz ao que a literatura oficial ou a instituição acadêmica ou a sociedade de controle ou os mecanismos partidários não suportam – uma modalidade outra de presença/ausência, mobilização/dispersão, comum/incomum, sujeito/anônimo, clandestinidade/irrupção, violência do Estado/contra-violência de resistência. Nessa sociabilidade almejada, fala um desejo de comunidade que passe ao largo das emboscadas institucionais, doutrinárias, superegóicas.
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Para finalizar, gostaria de mencionar dois títulos que estão no prelo e completam essa espécie de guerrilha editorial a que nos propomos. Um é O desencadeamento do mundo: a nova lógica da violência, de François Cusset – um dos textos mais lúcidos sobre as modalidades de violência que perpassam a atualidade, diferenciando a violência “fria” (econômica, jurídica, institucional) da violência “quente” (policial, miliciana, familiar etc). Aplica-se como uma luva ao caso brasileiro, e ajuda a pensar a escalada de violência, sem ficar na generalidade da denúncia moral.
O outro é Fascismo ou revolução? O neoliberalismo em chave estratégica, de Maurizio Lazzarato, livro recém concluído, que sairá no Brasil antes mesmo de ser publicado na França. As primeiras páginas se debruçam sobre o fenômeno Bolsonaro, lançando luz agudíssima sobre a conjunção entre fascismo e neoliberalismo que sua eleição representa, bem como entre governamentalidade e guerra civil. Ao repensar a relação entre macropolítica e micropolítica, Lazzarato ousa revisitar criticamente a noção de revolução e devolver-lhe a urgência e a necessidade, à luz de uma teorização renovada.
Independente das afinidades que enxergamos entre os vários autores que publicamos, embora eles mesmos se critiquem mutuamente, por vezes com grande aspereza, pensamos que todos revolvem um mesmo campo de problemas, e podem ser de grande valia para analisar o panorama sinistro que atravessa o Brasil e o mundo hoje, bem como as possibilidades de reversão que ele traz embutido. É um cardápio para tempos de indigestão fascista.




Entrevista com Centelha

1. O nome é Comitê X? Ou é uma maneira de se a ele, enquanto não sai o primeiro manifesto ou livro? A previsão é que saia em abril? A editora será a n-1?
“Centelha” porque nossas ações são mais uma entre as muitas ações de contestação da ordem capitalista que surgirão no país nesse momento de colapso de toda forma de governo possível. Nossa primeira ação é um livro que sairá em maio pela editora n-1. Outras virão.

2. Qual a ligação do Centelha com grupos como o comitê invisível?
Centelha é um dispositivo de combate de redimensionamento da imaginação política. Ele se soma a várias organizações, em várias partes, que visam abrir novamente o campo do político para experiências de transformação radical. Muitas dessas organizações são anônimas porque recusam os nomes e as formas de nomear que circulam atualmente. Contra a visibilidade atual, que já é em si todo um programa e um forma de vida, apostamos na força de novas invisibilidades.

3. Em linhas gerais, no que for possível adiantar, como o comitê brasileiro vê as manifestações de 2013, a derrocada dos governos petistas e a ascensão de Bolsonaro?
Em junho de 2013 foi aceso o pavio de uma bomba que explodirá a qualquer momento, e o que se seguiu foi um esforço inútil de interrupção desse processo. A esquerda que existia até então se mostrou incapaz de dar resposta à altura para a revolta popular. Não conseguiu nem reprimir os descontentes nem desmobilizá-los mediante a satisfação falseada de suas demandas radicais. Vendo o formidável savoir-faire petista de amansar conflitos de classe falhar, o Estado - forças armadas em primeiro lugar - acordou para a dimensão colossal da crise social que se avizinha, e disparou o alerta vermelho da contrarrevolução preventiva. Nas eleições de 2018, dada a ausência de uma esquerda anticapitalista, a população comprou a única solução à altura do momento histórico, que foi dada pelo Partido Empresarial-Militar, com o Capitão Messias à frente. A solução da extrema-direita, porém, não é uma alternativa ao sistema, mas uma alternativa do sistema. Se a esquerda superar seu passado conciliador e se provar a legítima canalizadora da ira popular, essa solução fracassará e o jogo virará completamente.

4. Existe algum trecho ou esboço ou qualquer texto escrito que possa ser fornecido para publicar em destaque no jornal?
“Nossa democracia não está no passado, pois ela não pode estar onde ela nunca existiu. Ela está a nossa frente, como uma invenção radicalmente coletiva que só acontecerá quando calarmos de vez a melancolia que o poder nos impõe e à qual nos vinculamos com um prazer inconfesso. Saibam que contra esse desejo de fazer o mundo desabar ainda veremos todas as forças se levantarem. O fascismo sempre foi a reação desesperada contra a força de uma revolução iminente. Se ele voltou agora é porque o chão treme, é porque as rachaduras no edifício da ordem estão grandes demais para serem escondidas. Ouçam como treme o chão, como há algo que quer atravessar o solo. Não nos deixemos enganar mais uma vez: vivemos uma contrarevolução preventiva que não temerá recorrer à violência extrema para nos calar. Mas não estamos perdendo, apenas somos incapazes atualmente de imaginar a nossa própria vitória” (Trecho da introdução da primeira publicação da Centelha).





Sobre o aspecto gráfico: Ao pensarmos nossas publicações como livros-objetos, o que está em jogo é uma articulação entre forma e conteúdo. Ademais, a combinação de métodos artesanais com industriais está relacionada com a proposta de pensar um livro em sua potencialidade sensorial. É o caso de Aos nossos amigos, cuja capa tem um canto queimado de verdade, um a um, com maçarico, como se saísse de um combate incendiário. Ou O corpo utópico, As heterotopias, de Foucault, onde o reverso da capa desdobrável é em prata espelhada e precisa da página vizinha para dar a ler um texto de Foucault impresso ao avesso: MINHA MANEIRA DE NÃO SER MAIS O MESMO É, POR DEFINIÇÃO, A PARTE MAIS SINGULAR DO QUE SOU.
Ricardo Muniz Fernandes é o diretor de arte da editora e trabalha conjuntamente com Érico Peretta, responsável pela implementação do projeto gráfico.
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